Foto: vapor Salier em destaque. Transatlântico alemão.
Disponível em: https://rimartes.com/portfolio/salier/
Temos muito poucas informações a respeito da Família Schwiertz, desde sua saída do continente Europeu até seu estabelecimento no Brasil. Porém, através de documentos e análises da situação global entre 1830 e 1876 poderemos traçar uma linha e tentar entender tudo o que ocorreu com essa família que com 4 crianças e mais 1 nascida a bordo do vapor Salier escolheram o Brasil, e especificamente São José dos Pinhais no Paraná para ser sua nova casa.
Em primeiro lugar precisamos entender como estava dividido o território da família Schwiertz antes de sua vinda ao Brasil. Nos registros brasileiros que temos de Joseph Schwierz (ou Jose Schwertz), nascido aproximadamente em 1833, e Dorothea Greguletz (ou Dorka Swrezc), nascida aproximadamente em 1837, vemos registros da naturalidade dos mesmos sendo da Polônia e Prussia. Na década de 1830, quando nasceram, a Prussia era apenas um de muitos reinos alemães. Em 1871, ela venceu a França e unificou a Alemanha, tornando-se Império Alemão. Entre 1830 e 1863 houveram revoltas polonesas principalmente contra o Império Russo, que controlava grande parte do território polonês. A resposta da Prussia contra essas revoltas foi endurecer o controle, culminando no Kulturkampf (1871-1878), que perseguia a Igreja Católica (e fiéis) e proibia a língua polonesa.
Após a Prussia abolir a servidão, e os camponeses se tornarem livres, eles se viram em outra situação: não tinham terras suficientes para sustentar suas famílias que eram grandes. A partir disso, a situação econômica da região contribuiu muito para a emigração de seus camponeses para outros países. A Silésia (onde fica Chrosczutz) tornou-se um importante polo de mineração e siderurgia. Isso Criou riqueza para o Império, mas expulsou muitos camponeses do campo para as cidades ou para o exterior. Pragas nas plantações e altos impostos para financiar as guerras de unificação alemã deixaram o povo rural em situação de miséria.
Os camponeses também viviam uma crise social. primeiro que, o governo queria que todos fossem "alemães". Nas escolas em Chrosczutz, as crianças eram punidas se falassem polonês ou silesiano. Segundo que, com as guerras de 1866 (contra Áustria) e 1870 (contra França), os jovens eram convocados a lutar, e deviam estar disponíveis para o exército até os 45 anos de idade, mesmo que possuissem mulher e filhos.
A partir de 1870, começaram a circular fotos e cartas prometendo que no Brasil o imigrante seria "dono de sua terra" e livre para praticar sua religião. Para um simples camponês que vivia em Chrosczutz, ficar ali significava ser soldado da Prussia, ser obrigado a falar alemão e ver seus filhos sem terra. Vir para o Brasil seria uma esperança, e uma oportunidade em novas terras. O Brasil facilitou a imigração europeia devido a necessidade urgente de substituir a mão de obra escrava, principalmente nas lavouras de café. Outra questão era um projeto político-social das elites de "europeizar" ou embranquecer a população. O governo também buscava povoar regiões que consideravam "desabitadas" ou inexploradas, mais especificamente no sul do país, criando colônias agrícolas.
VAPOR SALIER
Não podemos falar de imigração polonesa, e esquecer de citar o vapor que trouxe os camponeses da europa ao Brasil. O SS Salier foi construído em 1875 pela Earle's Shipbuilding e Engineering Co., em Hull, na Inglaterra. Media aproximadamente 108 metros de comprimento (353 pés) por 12 metros de largura. Possuia um motor composto por 2 cilindros, sendo atualizado em 1891 para um motor de tripla expansão de 3 cilindros para maior eficiência. Alcançava cerca de 13 nós de velocidade (aprox. 24 km/h).
A primeira viagem do navio Salier (pertencente à empresa alemã Nordddeutscher Lloyd - NDL) ocorreu em setembro de 1875. O navio foi construido para atender a uma nova concessão obtida pela NDL para operar rotas entre Bremen (Alemanha), Brasil e Argentina.
Na época o navio transportava uma mistura de nacionalidades, incluindo alemães, austríacos (que incluiam muitos poloneses e silesianos devido as dimensões territoriais), italianos e belgas. As viagens levavam de 20 a 30 dias, e como era comum, a maioria dos imigrantes viajavam na terceira classe (porão), enfrentando superlotação e condições de higiene precárias onde tornava um risco grande por conta de doenças. Durante a travessia eram registradas diversas mortes com sepultamentos no mar. Os imigrantes passavam por tudo isso, simplesmente para alcançar um lugar melhor para viver, ou seja, chegar no Brasil.
O navio Salier teve seu fim trágico na costa da Espanha após 21 anos de serviço. O acidente ocorreu no dia 08 de dezembro de 1896 durante uma forte tempestade que fez o Salier colidir contra os recifes de Corrubedo (Baía de Arosa, Galiza). No acidente não houveram sobreviventes. Todas as 281 pessoas a bordo morreram. Muito corpos foram encontrados sem colete salva-vidas, indicando que o navio afundou tão rápido, que não deu tempo dos passageiros acordarem e tentarem se salvar.
VIAGEM DA FAMÍLIA SCHWIERTZ NO SALIER
O que encontramos de registros da família Schwiertz é a relação de passageiros do Vapor Salier, ou seja, conseguimos identificar uma pequena parte das informações da familia. Pelo registro podemos ver que Joseph Schwiertz (43), estava acompanhado de sua esposa Dorothea (39) que estava grávida, e de seus filhos Rochus (13), Maria (9), Francisca (6) e Catharina (3). Do documento das relações de passageiros do Vapor Salier, temos como procedencia (tipo de conexão de navios, ou seja, os lugares onde embarcavam passageiros) Bremen, Antuerpia e Chroczutz (atualmente Chróscice, na Polônia). Com essas informações, podemos apenas supor/imaginar que ocorreu o seguinte com a família de Joseph:
Como Chroczutz (atualmente Chróscice) é uma pequena vila, as famílias se utilizavam de carroças para levar seus pertences até a cidade de Oppeln (atual Opole), que era o centro administrativo e ferroviário mais próximo. De Oppeln, embarcavam em linha férrea em direção a Breslau (atual Wrolaw). A partir de Breslau, seguiam em trens rumo a Berlin e, finalmente, para a estação ferroviária de Bremen, para em seguida seguir por um trecho curto de trem até Bremerhaven, o porto de onde os navios partiam. Após isso, o navio passava pelo porto de Antuérpia, e seguia seu destino ao Brasil, passando por outros portos.
Temos duas alternativas: a família Schwiertz pode ter feito a rota Chrocszutz - Bremen - Antuérpia, ou ter saído de Chrocszutz de trem e ido direto a Antuerpia onde embarcou no Vapor Salier. No final, o distino seria o mesmo, ou seja, uma vida nova e melhor no Brasil.
Após a chegada da família no Brasil, muitos registros foram feitos, onde o sobrenome da família foi escrito de forma diferente da que realmente era. Podemos tentar explicar de diversas formas, como:
1 - Os funcionários das alfândegas e das hospedarias no Brasil, eram na maioria das vezes falantes do português ou alemães contratados. Eles escreviam os sobrenomes como ouviam. O escrivão adaptava para a grafia latina ou portuguesa;
2 - Como os imigrantes de Chrosczutz vinham da Prussia (domínio alemão), muitos documentos de saída já estavam germanizados. Ao chegar ao Brasil, o nome passava por uma segunda distorção: do polonês para o alemão, e depois para o português;
3 - Muitos funcionários dos portos eram semipreparados e lidavam com centenas de pessoas ao mesmo tempo, priorizando a rapidez sobre a precisão ortográfica;
4 - A grande maioria dos camponeses adultos era analfabeta ou sabia apenas assinar o próprio nome. Não tinham como conferir se o escrivão estava escrevendo o sobrenome corretamente. A maior parte da educação dos camponeses vinha da Igreja Católica. Sabiam rezar, mas não dominavam a escrita formal. Em determinadas regiões sabiam escrever e ler em alemão, mas em casa falavam somente o polonês.
COLÔNIA ZACARIAS
Depois que a família Schwiertz chegou ao Brasil, se instalou na cidade de São José dos Pinhais, no Paraná, exatamente em uma colônia de imigrantes poloneses que colocaram o nome de Colônia Zacarias. O nome da colônia, assim como de outras que foram instaladas na época, é uma homenagem a uma autoridade política. No caso da Colônia Zacarias é um reconhecimento ao primeiro presidente (como se chamava na época do Império o governador de um Estado) do Paraná, Zacarias de Góes e Vasconcellos. Na Colônia Zacarias, o Sr Joseph Schwiertz (se tornou um dos fundadores da Colônia), seguiu a sua vida sendo lavrador.
REGISTROS DA FAMÍLIA
Como já falado anteriormente, depois da chegada da família Schwiertz ao Brasil, houveram diversos erros na escrita dos sobrenomes nos registros dos portos de embarque ou nos cartórios. A mesma família se utilizou de várias escritas dos sobrenomes: Schwiertz, Schwertz, Schwerts, Schuertz, Schuartez, Chuertz e a variação Swrezc. Veja a seguir os principais dados da família e as divergencias de nomes:
1- JOSEPH SCHWIERTZ
Nascido aproximadamente em 1833. O primeiro registro do nome está na relação do passageiros do vapor Salier, em 1876. Seu atestado de óbito datado do dia 10/05/1916 registra o nome de Jose Schwertz.
Disponível em: base de imigrantes
2- DOROTHEA SCHWERTZ
Nascida aproximadamente em 1837. Na relação de passageiros do vapor Salier, em 1876, não descreve seu sobrenome. Em alguns registros é informado o sobrenome de seu pai, Greguletz. Em sua certidão de óbito datada do dia 15/09/1928 registra o nome Dorka Swrezc. Na certidão vem descrito o nome de seu esposo Jose Schwertz.
Trecho da certidão de falecimento do Sr Jose Schwertz. Seu sobrenome vem descrito como "Schwertz", e que era natural da Polônia. Na certidão vem descrito o nome de sua esposa Dorothea Schwertz. Foi sepultado no cemitério da Colonia Zacarias. Registro de óbito de São José dos Pinhais. Página 79, registro de nº155 de 11/05/1916.
3- ROQUE SCHWERTZ
Nascido aproximadamente em 1863. Seu nome aparece na relação de passageiros do vapor Salier, em 1876. Na época tinha 13 anos. Não é informado seu sobrenome, e seu nome vem descrito como Rochus. No atestado de óbito de seu pais, em 10/05/1916 vem registrado como declarante com o nome de Roque Schuertz. Em Curitiba, no Paraná, ainda existem descendentes de Roque que utilizam o sobrenome Schuertz, ou até mesmo Schwertz.
Inicio da certidão de falecimento do Sr Jose Schwertz. Na certidão vem descrito como declarante Roque Schwertz. Registro de óbito de São José dos Pinhais. Página 79, registro de nº155 de 11/05/1916.
Disponível em: https://www.familysearch.org
4- CATHARINA SCHUARTZ
Nascida aproximadamente em 1873. Seu nome aparece na relação de passageiros do vapor Salier, em 1876. Na época tinha 03 anos. Não é informado seu sobrenome. Seus registro são os com mais váriações e por consequencia seus pais, quando estes são descritos nos mesmos registros. No registro de nascimento de seu filho Leonidas (1897), seu nome está como Catharina Schwerts, seus pais como Jose Schwerts e Dorothea Schwerts. Nas certidão de casamento de seu filho Leonidas, seu nome está como Catharina Schuartz (1929). Na certidão de óbito de Leonidas (1968), seu nome está como Catarina Cordeiro (utilizando o sobrenome de seu esposo João Cordeiro Netto). A certidão de casamento de Catharina com João Cordeiro Netto, realizado no dia 21/08/1900, ela assina o nome Catharina Chuertes.FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
ARQUIVO NACIONAL. DIVISAO DE POLICIA MARITIMA, AEREA E DE FRONTEIRAS - DPMAF RELAÇOES DE PASSAGEIROS EM VAPORES PORTO DO RIO DE JANEIRO. Disponível em:
http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/BR_RJANRIO_OL/0/RPV/PRJ/00124/BR_RJANRIO_OL_0_RPV_PRJ_00124_d0001de0001.pdf
ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009. Disponível em:
https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/2019-01/1548772192_f6e47e605f57df24d1af54047ea2aa8b.pdf
A IMIGRAÇÃO POLONESA NO TERRITÓRIO PARANAENSE. UFPR. Disponível em:
https://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/1756-8.pdf
Jornal De Fato: Disponível em:
https://jornaldefatopr.blogspot.com/2017/03/conheca-historia-da-colonia-zacarias.html
Correio do Povo do Paraná: Disponível em:
https://www.jcorreiodopovo.com.br/sem-categoria/virmond-historiadora-selma-viechnieski-publica-2-livro-sobre-a-imigracao-polonesa/
Projeto Rimartes. Disponível em:
https://rimartes.com/portfolio/salier/
Guia SJP. Entrevista comMaria Angélica Marochi - Além das Aparências. Disponível em:
https://www.guiasjp.com/noticias/cidadania/entrevista+maria+angelica+marochi++alem+das+aparencias/36875
Blog Cabo Corrubedo. Disponível em:
https://cabocorrubedo.com/2016/12/08/salier/
Nostro Nonno. Portal Italia. Disponível em:
https://nostrononno.wordpress.com/2019/11/22/vapor-salier-25-11-1876/#:~:text=embarque%20Bremen%2C%20Antu%C3%A9rpia%2C%20Lisboa%2C%20Madeira%20e%20escalas,ALBERTI%2C%20LOTTRARI%2C%20BONGIOVANNI%2C%20GALVAGNI%2C%20AMADORI%2C%20LORENZI%2C%20FAVA%2C

















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